segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


Analise semi-crítica da Obra:

Antologia Poética, de Carlos Drummond de Andrade
(organizada pelo próprio autor em 1962) .

Editora Record; Rio de Janeiro , 2010 – 65ª edição.

Introdução:
A ideia surgiu com a leitura desta obra no fins de 2010, porém o intuito não é necessária-mente criticar (por isso semi-crítica) mas deixar mais re-flexivel o texto para uma discussão aberta em aficionados da poesia. É ainda mais uma propaganda deste livro que foi distribuído na rede público de ensino do Estado de São Paulo em 2010, o qual tive acesso graças aos meus alunos que não tiveram (ou não foram convencidos ainda) apreço por este e por todos os outros livros entregues gratuita-mente nas escolas. Porém dou meus votos de elevada consideração ao projeto Apoio ao Saber, a Secretaria da Educação do Governo de São Paulo e a Fundação de Desenvolvimento da Educação.

Bom espero que consiga atrair comentários e correções já que nada que estou dizendo está definido por parâmetros teórico-acadêmico, é mais espontâneo e poético para aproximar a poesia da vida cotidiana e não leva-la a sintaxes e sim a semântica. Sempre acreditei que a poesia se aproxima deveras da filosofia, assim minha reflexões corrompem em demasia o poema por trazer as vezes ela a minha subjetividade, não quero apenas entender Drummond mais a mim mesmo.

Começarei do inicio, pelo costume, assim que puder ter nas mãos obra para acompanhar a reflexão junto com o poema seria o ideal. Interessante é ler o prefácio de Marco Lucchesi e a Introdução do próprio Drummond que sintetiza o 1º Capítulo (Um eu todo retorcido) como O indivíduo. Assim sucessiva-mente irei percorrendo o caminho idealizado pelo autor.

Leandro Custódio – 2 de Janeiro 2012


Parte I: Um eu todo retorcido. (O indivíduo)

1º Poema: Poema da Sete Faces (pg. 21, 22)

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

***

Um anjo torto que vive na sombra, não deve e não é um anjo comum, desses que são retos (corretos) que vivem na luz. Um anjo rebelde? Anjo Radical, anormal, “diferente”...? Que disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Como assim, ser gauche, o que é ser gauche? Como ser gauche pra quem nasce em Itabira? Não apenas itabirano, mas mineiro; Vinde Carlos de terras de linhas retas e tradicionais, chegando ao Rio de Janeiro, chegando lá não pode deixar de notar a mulheres despidas do moralismo arcaico. Carlos foi gauche na vida.

Qual a cor do desejo? O vermelho, a cor do sangue e do inferno? Nesta mistura de azul com vermelho surge o lilás, teria sentido um céu lilas. Talvez não. Talvez não houvesse mistura, mas um degrade, entre um olho neutro e um outro cheio de desejo.

O que importa a cor do céu? Quando se têm as pernas, pernas brancas, pretas e amarelas. Essa são as cores do desejo. O coração é sentimento é questiona-dor, os olhos não, eles não perguntam nada, os olhos olham, observam, contemplam, desejam...

Óculos e bigode, disfarce cotidiano que diz, mas não diz nada, um paradoxo. O homem é sério, simples e forte? Pouco conversa e assim se deduz: “ Tem poucos, raros amigos”.

Deus abandonou Carlos. Porque ele não era Deus, porque ele era fraco. Porque ele escolheu a sombra do anjo do torto...

Se Carlos fosse Raimundo, seria o mesmo Carlos, ou seja, não mudaria nada, só faria uma rima com o Mundo, não seria uma solução, pois vasto mesmo é o seu coração.

A lua, o conhaque, a poesia, as pernas e os desejos... real-mente comove a gente... como o Diabo? As curvas e todas as 7 faces (7 estrofes) do poema, são em si apenas um rosto, que vai se moldando em acontecimentos e impressões diárias, são múltiplos dramas simples e genéricos, que com álcool e companhia se transforma em desabafos. Neste dualismo Deus (céu azul) e Diabo (Anjo Torto) que vai vivendo Carlos, que mesmo cético admira quem tem uma religião e fé.
Vejo Deus na figura de Apolo, presente nas questões e na busca da razão, na linha reta, nas casas que espiam os homens, no homem de bigode. O Anjo Torto seria Dionisíaco (um contraste natural a todo itabirano) que tem desejos em doses de exagero, como a cada dose de conhaque, a parte que não se preocupa, que são olhos extasiados/paralisados, o diabo está nas pernas: brancas, pretas e amarelas... ambicioso desejo diante da lua. Um Belo convite diante de uma mulher..
Neste poema Carlos nos ensina o que é ser gauche na vida, é estar diante do paradigma do ver e do sentir, da visão que deseja e do coração que pergunta. Carlos é mais forte que o homem atras do bigode. Ver Carlos, Ler Carlos, Sentir Carlos é o puro contraste.       

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